Estou lendo “Vida” de Paulo Leminski que é um livro das
biografias de Cruz e Sousa, Basho, Jesus e Trótski.
Em Cruz e Sousa, achei interessante a comparação que ele faz
entre spleen, banzo, blues e sabishisa. Vou explicar estas coisas.
O Spleen é um modismo que surgiu no estilo romântico e
influenciou também o Simbolismo. Cruz e
Sousa usava este modismo. É um tipo de tristeza, indisposição, indefinível
sentimento de tédio diante da vida. Spleen, do inglês quer dizer baço. Hipócrates
explicava o mau humor a uma disfunção no baço.
O grande disseminador do Spleen na Europa foi Lord Byron.
Baudelaire, um dos pais do Simbolismo, sentia muito spleen.
Já o banzo acontecia entre os negros escravizados. Quando ele
banzava parava de trabalhar e nenhuma tortura(chicote, ferro em brasa) o fazia
se mover. Vinha o desejo de comer terra e comendo terra o desejo de ir para a África,
através da morte.
Em que se distingue este sentimento do blues? Porque, antes
de ser um estilo musical, blues é um jeito de se sentir do negro
norte-americano. Ou americano?
“Tem blues nas canções anônimas da anômala fauna de New Orleans,
putas, seus gigolôs, drogados, ex-penitenciários, homossexuais, crupiês,
marginais, mais que isso, negros marginais, destinos cortados, restos de vida,
párias do mundo.”
Paulo Leminski
Sabishisa, em
japonês quer dizer mais ou menos tristeza. A tristeza de quem sabe que as
coisas passam, nada dura, tudo é fluxo, metamorfose e impermanência, heraclitiano
fundamental do budismo em geral.
Sabishisa é uma
condição para a produção do haikai para os poetas japoneses deste estilo.
Essa sabishisa não
é incompatível com júbilo, a alegria profunda, o prazer de viver e o amor pelos
outros: é uma “ qualidade” budista, que perpassa todas as vivências. E lhes dá
uma cor própria.
Que céu, que inferno,
que profundo inferno,
Que outros, que azuis,
que lágrimas, que risos
Quanto magoado
sentimento eterno
Nesses ritmos trêmulos
e indecisos...
Cruz e Sousa, “Violões que choram”
“Uma das palavras favoritas de Mallarmé, um dos pais do
simbolismo, era 'azul', 'l’azur', 'Blue', azul. Blues, uma música azul, chamada tristeza.”
Paulo Leminski